sábado, 22 de outubro de 2011

A DOR HUMANA

Imensa é a dor humana
contemplando o abismo vazio
onde as pessoas às vezes não passam de coisas
cemitérios em ilhas de plástico e tomadas
e o computador é só essa outra coisa ligada
e algumas pessoas inteiras também ligadas
que na garganta da noite que engole madrugadas
as veias de sangue são muito finas
e sempre acabam em nada.

sábado, 3 de setembro de 2011

O TOMBO NA RUA

O dia em que eu caí na rua
foi o dia em que a guia
translúcido meio-fio enviesado
precipitou-se em precipício

e as minúsculas pedrinhas do asfalto
que do alto
pareciam tão escuras

dentro do rosto
magníficas, perfeitas
fincaram como agulhas

cintilando reluzentes
como minúsculos diabinhos de piche
formigas-miniaturas...

COSMÉTICOS-PERFEITOS

Tem um cara que diz coisas grandes
Imensos balões mágicos de vapor
Aeronaves alfabéticas multicores
Bocarra monstra do tamanho da lua
Incríveis flashes lúdicos de uma luzinha cinza
Barbitúricos sonoros de felicidade
Ecoares magníficos certeiros
Foguetes angelicais
Vendedores baratos...

sábado, 16 de julho de 2011

TRIPAS

brotam sementes
de dentro do varal serpente
e vazam
camisas estranhas
camisolas com escritos de sangue
lantejoulas de metal
prendedores como estacas de vampiro
frases macabras silkadas
camisetas vermelho-pretas
mórbidas meias-calças coloridas
frutas entranhas...

SANTA LUZ

no prédio inteiro
uma única luz acesa
a meia altura
dentro de um cômodo amarelo

a quem te orienta
parca luz que bruxuleia
será ao tédio da vida
ainda a espera da morte?

terça-feira, 21 de junho de 2011

MULHER

Ela ultrapassa Iguaçu
ultrapassa Paris
ultrapassa a lua
e sobe
fica um tempo por cima dos meus ombros
e equilibrando-se com os braços abertos
flutua
quicando pelos cantos do teto da cozinha
e canta tantas coisas malucas
e puxa toda a água com um rodo
e planta umas sementinhas
que logo depois viram mudas
e tempera uns negócios estranhos
dentro duma panela preta com um pentagrama pintado de esmalte no fundo
e tira fotos dos passarinhos na rua
sentados num cordão colorido
quarta-feira à tarde
um sol de trincar estruturas
depois
chega com asas amarelas
5.000 pés de altura
granizos ao vento
beijos supersônicos
outras sementes pra arar a terra
mãos vazias que contornam a enxada
Allan Kardec
sementes de mostarda
pirâmides de pedrinhas
a forma exata de pássaros voando
quando olhadas de longe...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

MINGAU E O JUIZO FINAL

A cidade ferve e eu acho que não tenho mais nada a ver com ela, por isso fiz minha mala e estou dando o fora essa tarde antes que as coisas peguem fogo. Segundo as previsões a temperatura deve chegar aos 34º lá pelas 3 da tarde e os peixes contaminados irão saltar de dentro dos rios direto para as bocas das pessoas e será como o dia do juízo final. Pelo menos foi o que contaram no jornal da manhã, acordar mais cedo tem suas vantagens, ou será que tudo não passa duma grande mentira? Dizem que os peixes e uns crustáceos mais resistentes às mudanças do tempo andam se alimentando de restos de baterias de celular e de pilhas velhas que são descartadas nos leitos dos rios e isso tem feito com que essas espécies inofensivas desenvolvam um tipo de organismo de mercúrio e níquel misturados. Outro dia mesmo saiu uma matéria num jornal sobre uns pescadores que usavam pequenas piavas para acender os faroletes e que os índios ianomâmis usavam tilapias para recarregar seus aparelhos de telefone celular, inclusive na matéria havia uma entrevista com um índio que reclamava, usando palavras nem um pouco amistosas, sobre a alta conta de telefone que andavam recebendo na aldeia, segundo ele, tudo por culpa de sua mulher, uma rechonchuda e sorridente ianomâmi deitada numa rede numa longa conversa interurbana.
O ônibus sai as 2:15 da tarde e lá pelas 4 devo estar numa distancia mais ou menos segura. Comprei a última passagem num ônibus fretado até Fama, no sul de Minas, de lá pego um barco e sigo até uma pequena ilha, na verdade um banco de areia no meio da represa onde devo passar os próximos dias, até as coisas se acertarem por aqui. Levo uma barraca, saco de dormir e comida para três meses, aprox. É ônibus de excursão escolar e só me deixaram ir junto porque um dos alunos cancelou a viagem na última hora. Espero conhecer admiráveis menininhas de 16 e 17 anos, mas por precaução arrumei um fone de ouvido dos grandes. Espero que tenha banheiro dentro do ônibus e espero que ninguém se incomode se eu fumar no banheiro, é que sempre fico meio apreensivo em viagens, principalmente de ônibus, e principalmente por estradinhas de terra, pois é, esqueci de contar, é uma viagem de estudo pelo interior do país, por vias secundárias e terciárias, onde o sul de minas será apenas uma breve passagem, visto que pretendem finalizar o percurso em Erexim, no Piauí e de lá parece que vão seguir de avião até a Disney ou alguma coisa parecida. Não tive como escolher coisa melhor, esse foi o único ônibus que sobrou da frota inteira incendiada na semana passada. Só lá na rua foram cinco, e uns moleques logo correram com uns espetos improvisados com batata-doce e salsicha, sequei dois pares de meias numa dessas imensas fogueiras. E dormi de pé aquecido pelos ataques extremistas. Quando acordei havia cinco esqueletos de ônibus como pedaços de carvão pela rua e crianças de rosto sujo brincando de excursão no que sobrou daquilo. O bom de ser criança é isso, o fim do mundo sempre parece como um parque divertido. Quando crescemos todos os parques se parecem com o fim do mundo.
E eu tive que sintonizar o rádio enquanto espero a hora de partir rumo à rodoviária, e parece que dois prédios desabaram no centro da cidade e por sorte não havia ninguém dentro deles, isso foi ao meio-dia e todos estavam na fila do cachorro-quente agora as equipes de reportagem reviram os escombros na esperança de encontrar alguma possível vítima que possa ser entrevistada, antes que uma das reportagens fosse para o ar, pegaram um menino que circulava pelos arredores e pediram para que ele esfregasse um pouco de fuligem no rosto e quando a matéria enfim entrou ao vivo tudo não passava duma entrevista arranjada com um tom milagroso de sobrevivência humana e vontade lá de cima, e ainda perguntaram para ele o que achava de tudo aquilo e ele olhou para a câmera e deu um arroto, pois esqueceram que além do cachorro-quente era dia de promoção da coca-cola e tentaram cortar a última parte, mas era tarde e já tinha ido para o ar assim mesmo e muitas pessoas começaram a rir da inocência disso no meio daquilo tudo quando um repórter retirando um tijolo de cima duma pilha enfiou a cabeça num buraco perguntando se tinha alguém ali.
1:14, melhor eu dar o fora agora, é quase uma hora de caminhada, ônibus não tem, trem também não e táxi só para com mandato judicial. Apanho minhas coisas e as empilho às costas, deixo uma fresta de janela aberta para o gato e comida para 20 semanas, eu volto eu falo, mas ele nem liga, se espreguiça debaixo do sol num canto perto do telhado e eu tenho um pouco de inveja dele e da sua indiferença e eu sei que tento a todo custo ser assim, mas o máximo que já consegui foi arrepiar o cabelo e enfiar um alfinete na orelha, depois me cansei de Sex Pistols e quando descobri que os filósofos todos se contradiziam não soube por anos onde enfiar a cara para tentar esconde-la disso que todos ou quase todos, chamam de mundo. Melhor dar o fora.
Tchau Mingau. Fica bem.
Prometo que volto.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

JULHO

Ficava pensando no vento
Cortando os lábios do tempo
Fissuras de esquecimento
Impedimentos
E ficava nessa de espera
De um ônibus depois o outro
E todas as pessoas que passavam pela rua
Tinham o mesmo rosto
Até então sem suspeitar
Que ônibus nenhum serviria
Olhava para os postes e muros
Exibindo cartazes obscuros
Garras de tigre projetadas das trevas
Fachos florescentes como olhos
Sorrisos de vampiro
Toda a periferia paulista ali reunida
E faróis que acenavam como velas
Que velas derretidas eram aquelas
Desintegrando os mistérios dessa vida
Deixando tão poucos silêncios desencontrados
Por saber que nada ali mais serviria
E que ela também não viria
E não viria nunca em outro dia
E que o vento decerto cortava os teus lábios
E que os meus por hora mergulhavam entre postes e muros...

sábado, 28 de maio de 2011

A CHEGADA DO PERDEDOR AO INFERNO

Chegando ao inferno o perdedor deu de cara com o Diabo
em dentes arreganhados e chifres pontiagudos
que calado apontou-lhe um armário bem ao lado
onde guardavam todos os rodos e vassouras do inferno
em seguida indicou-lhe um caminho coberto por brasas
por onde deveria caminhar descalço
e gargalhou
fuzilando-o com olhos malditos...

FIGURANTES

No fim das contas os transeuntes todos somados
não passam de dois figurantes multiplicados
que passam todo o tempo esperando
ou então desabando pequenos prédios de gesso
enquanto o outro
sentado numa mesa vazia
acaricia a pélvis
gesticulando doces conversas mudas...

NO FIM DO EXPEDIENTE

Na hora da brisa
vagando perdido pelo meio da rua
a poesia perdida
é sempre a melhor poesia da vida
é como essa rua deserta desenrolando
e na avenida
a criança no colo do palhaço
os flashes das máquinas espocando
carros enfileirados em estacionamentos
pessoas enfileiradas dentro de supermercados...

AGENDA TELEFÔNICA

Tudo o que eu tenho dentro dessa agenda telefônica
são contatos de médicos
de clínicas psiquiátricas
e contatos de enfermeiras
em roupas de mulher gato
e soníferas injeções mágicas
as vezes penso em pular pela janela
só porque a casa é térrea
um bando de filhos da puta espreitando
espio pela janela
e fico assim um tempo
tentando decifrar
cada centímetro de fresta...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

PELA METADE

Quando ela parte
também uma parte de mim vai embora
e aquela de mim que vai nela
é sempre a parte mais divertida
agora a metade que chora
é a mesma metade que ela não quis levar-me embora
sinto um pouco como se tivesse sido
furtado de mim
um braço penso
que mal se sustenta na cama
uma perna manca que erra
e atravanca por caminhos ermos
esse sou eu agora
a metade do que era antes
porque só fui inteiro
porque só fui completo
quando esse em mim era dela...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ZAPS

qualquer lugar é o topo da montanha
junte três potes de margarina
e montes de selos postais
cartas escritas à mão guardadas no fundo de uma gaveta
o começo de uma música qualquer
os primeiros acordes
a lua feita uma pele
a pele feita lua
grupos de dança
o solo mais bonito
noites capazes de fazer esquecer o dia
dias curadores de todas as ressacas
musicas que dão saltos
nós e coisas lisas como carpas
scooby doo fazendo a dança tchá
balé russo
romeu e julieta
o capitulo final...

A REDE SOCIAL

Navegando mar adentro
o pedaço felpudo
de um azul cobertor qualquer
a brasa de um cigarro ainda aceso
tocando o fundo do pires
como faróis prateados em chamas
minúsculas cidadezinhas praianas
ardendo em fogo
pobres Copacabanas Modernas...

HAI-KAIS

INTERRUPTORES

no entardecer
as luzes acontecem:
energização!

THE CURE

é manhã, chove
vou chorando a chuva
passando o dia...

É NOITE

anuncia a rua:
- saiam todos poetas!
- saiam que sou lua!

NEVER MIND THE BOLLOCKS

lá vai o punk
de cabelo adiante
sujo coturno...

SUSPENSÓRIOS

é tarde: - Sieg Heil! -
grita o skin
só, mentalmente...

TELHADOS

de noite: gatos.
- que nunca dormem entre
nove e cinco -

PINHEIROS

nos bares vazios
os paulistanos palcos
poetas grogues...

MODERNIZAÇÃO

triste recado:
“o cinema fechado -
não reabrirá”

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

SHEILA X

O que Sheila tem de atraente, tem em dobro de barra-pesada. Ela diz ser oito ou oitenta, eu diria que ela é oito ou oitocentos. É sério. Não é exagero. Sheila X é fã da Malcolm X, chegou até a pintar um X bem grande numa camiseta que não trocava nunca, essa fase durou certo tempo, mas o apelido acabou ficando. Depois de um tempo, ela passou a contar que o apelido vinha da sua mania de ler história em quadrinhos, X-Men e todas essas coisas da Marvel e DC. Entre essas fases, Sheila costumava sumir por uns tempos, no começo circulava todo o tipo de boato quando ela não estava por perto, diziam que estava na Itália ou na cadeia, que se tratava de alguma doença ou mesmo que tinha morrido. E do nada reaparecia. Claro que andou brincando certo tempo com a morte, uns cinco ou seis meses, talvez. Depois disso, Dill – o tal ex-namorado, amanheceu morto numa manhã de domingo, o corpo foi encontrado ao lado dos ratos, na saída de um cano de esgoto, a boca cheia de formiga – Tinha tanta formiga que pensaram que o sangue fosse catchup – Sheila gostava de contar entre amigos e ria de não se conter – Imagina que aquele estúpido seria capaz de uma coisa dessas? Nem de dar risada ele gostava – depois já mudava de assunto e saía procurando alguma revista de horóscopo do outro lado do balcão do bar, trocava o cigarro de mão, corria até o banheiro, voltava depois de uns minutos, parecendo meio afobada, querendo ir nesse ou naquele lugar, geralmente do outro lado da cidade, insistindo todo o tempo naquilo, insistindo, insistindo, e as pessoas às vezes não tinham muita paciência. A verdade é que Sheila nunca ficou legal quando cheirava. O negócio dela é álcool, uísque com Red Bull, e só, no máximo uns baseados bem de vez em quando. Depois que começou a usar pó direito, passou a odiar os gays e travestis, se bem que por intermédio deles tenha ficado amiga do Plasil e sua turma, uma gangue de escatológicos virados na efedrina – ela contava sobre a vez em que quase matou um traveco atirando garrafas na sua direção ou de altas tretas com gangues de lésbicas – Só não gosto muito dos ratos, na maior parte das vezes, ratos são um problema – Fora isso se não tiver a cara muito deformada ou um pau que ejacula ácido – Sheila tinha uma coleção de armas em casa, e todas viviam carregadas – Quando tava louca de efedrina dava tiros de 22 mirando uma garrafa em cima da mesa, eu ficava no outro canto, na parede oposta a uns 8 metros de distância, de qualquer forma não era um troço fácil de se conseguir, por isso as paredes estão todas furadas – e uns caras paravam às vezes e metiam o pau por aqueles orifícios e Sheila chupava cada um deles por dinheiro, depois perdia todo o dinheiro em apostas. Foi sempre assim. Desde que ela chegou por aqui. De onde veio ninguém sabe. É meio árabe ou índia, meio africana e talvez um pouco européia também. Sheila é uma junção de muitas mulheres. E ela palita os dentes com a ponta de uma faca e depois atira aquela faca contra a parede e ela fica lá espetada, balançando um pouco até que para. Nisso Sheila já pulou pela janela e agora está lá fora abençoando os grilos e os deuses da chuva – Ei, Sheila, que tal darmos uma volta? - Ontem mesmo ela apareceu, trazia uns discos debaixo do braço: Extreme Noise Terror, Sore Throat, Napalm Death – todas essas podreiras, depois um pouco de Madonna, de Ana Carolina, não se importa com cinzeiros, deixa que as cinzas do cigarro caiam pelo chão – Desse jeito ela ainda acaba queimando todo o estofamento, e finalmente dá o fora, leva um Smiths e o maço com uns oito cigarros dentro, vai brincar com foto noutro canto. Na semana seguinte ela liga – Acho que esqueci alguma coisa na sua casa – mas dou uma procurada rápida com os olhos e não encontrando nada tento mudar de assunto, não adianta: - Estou indo ai – e bate o telefone na minha cara. Depois de duas horas aparece, toda ensopada, a maior chuva lá fora. Abro a porta e deixo que entre achando que é apenas pretexto. Depois disso circulamos um tempo por ali, pela sala, ela apanha uns discos, cantarola baixinho uma música que não entendo – Animals – talvez, canta sobre uma garota, depois fala sobre o filme dos X-Men e enquanto descreve as diferenças entre o cinema e os quadrinhos, abaixamos procurando alguma coisa perdida pelo chão – O quê é? – pergunto depois de um tempo – Uma ponta – responde sem prestar muita atenção – depois de cinco minutos canso daquilo vou para o quarto e trago um baseado pronto para ela – Fica com esse – mas acabamos fumando juntos e terminamos nossa noite bem no meio da sala, duas garrafas de vinho e becks bolivarianos pelos tacos soltos do assoalho, e a janela aberta, a luz dos postes iluminando parte do chão da sala a outra metade envolta na maior escuridão. E antes que amanheça, ela apanha as roupas, a bolsa e dá o fora como se estivesse arrependida. Depois liga. Diz que anda meio confusa. E enquanto fala, ainda do chão da sala, espreito sem querer numa fresta embaixo do sofá na direção de alguma coisa de que certamente já ouvi falar e então encontro aquela imensa ponta nunca antes encontrada. Que pretexto, que nada. Apanho o telefone outra vez, ela fala sem parar, como será que respira? – Alô Sheila?

sábado, 22 de janeiro de 2011

DADOS VICIADOS

Ela sai por uns tempos
sem dizer quando volta
bate a porta
tac tac tac
passos que se afastam
indo embora
então fico um tempo
com todas essas outras
suas amigas
minhas amigas
mulheres que riem tão alto
ou que choram o tempo inteiro
mulheres que enfiam tipos estranhos de objetos nos braços
que empilham e desempilham pratos
e guardam coisas
muitas coisas
dentro duns saquinhos de pano
e fumam cigarros Hollywood
e baseados
e mascam chiclete
e lêem o horóscopo
e quando uma vai embora
outra logo chega
como notas que saltam dos velhos discos de blues
como Virgens Marias guardadas nas páginas das revistas empilhadas
como a televisão no volume mais baixo
& atores completamente fora de foco...

UM SACO

Pergunta: Para quê serve um saco?
Resposta: Para guardar muitos outros saquinhos...

domingo, 24 de outubro de 2010

O ESTUDANTE PUNK

Bem no meio do caderno da escola
rabiscado com imensas letras pretas de carvão
três garrafais sentenças anunciadas
formando um único e estrondoso NÃO...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OTRO

Duas, três, quatro horas seguidas
Em que a gente fica a toa martelando
Com as pontas dos dedos ressecados
A madeira envelhecida no parapeito da janela
Projetando sombras que se contorcem na parede
Cada vez mais esquisitas
A medida em que o sol se aninha...

sábado, 9 de outubro de 2010

O CAMPEONATO DOS CHATOS NA CASA DO CARALHO

SEMIFINAIS:

10/10 22h - Canecão
CAETANO 1 X 0 OSWALDO MONTENEGRO

11/10 21h - Palace
CARLINHOS BROWN 5-2 X 2-6 ED MOTTA

DISPUTA DE TERCEIRO LUGAR:

14/10 21h - Estádio Brinco de Ouro
OSWALDO MONTENEGRO 1 X 2 CARLINHOS BROWN

FINAL:

15/10 22h - Maracanãzinho
CAETANO 3 X 1 ED MOTTA

terça-feira, 28 de setembro de 2010

NA CIDADE

A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas, como pracinhas esquecidas em finais de ruas nunca antes visitadas, como o fio do sorriso que falta a toda servidão humana impregnada de um medo estúpido de sair da linha despencando em vertigens asfaltadas. É O ônibus lotado acelerando com pneus mergulhados em poças de lama que se formaram com a chuva e executivos televisionados por helicópteros em cima das pontes pedindo ajuda. O congestionamento e a infinita soma das possibilidades de declínio absoluto, a risada gripal do ultimo, a fila dos desacordados pontualmente as 5.
A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas. O dedo que aciona o botão que aciona as comportas que aciona as camas. A flor morta dentro de um copo com água e o besouro a voar em círculos pela janela fechada. Na forma inexata de nuvens esfumaçadas e no fundo da cabeça um grilo, o cantar elétrico ininterrupto por estradas de 110 volts numa odisséia mental que é a televisão vomitando a imagem do papa bem no meio do tapete da sala inundada por pequenos terremotos caseiros em forma do Diálogo. Blind Lemon Jefferson, Son House e Lonnie Johnson
A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas, seja pelo tijolo, seja pelo concreto avança cada homem dentro de sua própria guerra, e toda aquela história ensolarada a respeito dos potes de margarina não passava de mentira, uma lenda urbana qualquer sobre a construção parcelada da vida, dez vezes sem juros no cartão de crédito com 0% de entrada, toda a velha ladainha, baldes com 5 litros do que quer que seja, homens uniformizados que se levantam rasgando elogios confusos para passagens bíblicas que deveriam ter sido decoradas no inferno, na Terra do Fogo ou na Sibéria, mas nunca perto daqui.
A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas como brindes de final de ano: um chaveiro sem chave nenhuma, um calendário cheio de dias de semana e canecas completamente ocadas, como o sorriso para a foto ou ampulhetas que foram todas corrompidas por esse zumbido de além-vida quando a única urgência possível é agora e que amanhã é nada além de febre. Já faz tempo que não temos muito tempo a perder com tudo isso, com todos esses caras estranhos, tamanhos diferentes e caminhos distorcidos pelo acelerar da utopia, cegos guiando cegos e carros em direção à gondolas cheias de roupas e crianças escondidas, um som qualquer para ser aumentado em dias para serem vividos. Tantas bocas à espera de beijo e tantas praças ainda vazias refletidas pelo retrovisor da mente no meio de certas curvas intempestivas disso que tanto nega tudo o que vale a pena.

sábado, 18 de setembro de 2010

LIQUIDIFICADORES

o som da voz humana percorrendo milhares de quilômetros de praias vazias
o som da voz humana como sinos despencando
como desastres aéreos
paisagens apocalípticas
campainhas
violinos desafinados
pingüins com alto-falantes
o som da voz humana devastando tudo
invadindo frestas e perfurando travesseiros
como raios de sol mortífero
como gás tóxico
carbono
arquétipos de guerras vazias
o som da voz humana acionando todas as comportas
a bomba
a música dentro de uma caixa
a razão destrambelhada
carros engripados numa auto-estrada
o animal abatido
o som da voz humana desvendando o mundo
em viagens flamejantes
abatendo estrelas numa velocidade absurda
paisagens incineradas
fones de ouvido no volume máximo
máquinas de escrever em escritórios de advocacia
fornos crematórios
telefones ocupados e copos trincando
o som da voz humana como uma visão
o caminhar trágico-desengonçado
a extensão infinita das cercas elétricas
de arame farpado
o arranjo de espinhos
uma coroa
o som da voz humana martelando
cacos de vidro
pregos e vigas
para dentro dos liquidificadores
uma moto-serra
tem o mesmo som da som da voz humana...

O NOSFERATU EM SÃO PAULO

Eletromagnéticas ondas de gelo
por cada estação percorrida
estalactites e estalagmites da alma
o vagão completamente abandonado
exceto pelos degraus da escada em despedida
choques termoelétricos
espasmódicas palavras inflexíveis na chuva
obtusas conjunções
blá blá blás infinitos...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

CANAL ABERTO

O biólogo televisivo pesquisa – aqui e ali
entre empoeirados tubos de ensaio coloridos
bucólicas paisagens de cem mil prateleiras de arquivos
telas em planaltos cinzas
sumidiços e propostas revistas
encontrando minúsculas larvinhas contorcidas
quase no final do programa e
que ainda agora,
na noite passada mesmo
foram vendidas como as mais autênticas vidas
enquanto os telespectadores
atávicos gorilas com controles remotos a laser
eram gentilmente convencidos à adicionar
um determinado conteúdo à química do programa...

O RESGATE

Vou desencapando o fio da idéia
na esperança de encontrar o poema perdido,
desenrolando o carretel de linha – vou descendo
o farolete segurado à boca iluminando paredes insossas
monstrinhos inacabados abençoando a lua
caricaturas de gente velha com pele derretida
bêbados de sono vomitando
e antes que o balão toque o chão
a linha do carretel chega ao fim
e lá em cima
mais ou menos na metade do caminho percorrido
o farolete ilumina amarelo
os imensos dentes pontiagudos do inferno.