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sábado, 17 de março de 2012

A FESTA

no salão em forma de redoma se encontraram todos para a festa
e todos eram tão inteligentes, bonitos e engraçados
até mesmo os que não eram engraçados ou ligados o suficiente
saiam dizendo verdades inteiras pela sala
verdadeiros cabides de preciosidades gigantes
camisolas voadoras em palavras de prata
outros assumiam a forma de Shiva e prostravam-se em silêncio como lindas luas
e para muitos ali reunidos, mil oceanos somados não eram páreo
mais ou menos na hora em que a imensa redoma mais fervilhava
notei que havia uma dente caído no chão
decerto alguém o perdera bem no meio da festa
e isso, de certa forma, era uma coisa muito triste de se ver
pois fosse quem fosse o dono daquela solitária peça
teria ficado sem poder dar o ar maior da sua graça
pelo resto da noite enluarada
a menos que tenha participado de um dos tais jogos de mímica
embora duvide que tenha se arriscado
na tal redoma permaneci por outros dois quartos de madrugada
tendo ido embora antes mesmo do estrondo com que despendiam-se em retirada
o que sei é que seja lá o que tenha acontecido naquela festa
permaneceu o dente esquecido, tão pequeno
completamente ignorado, cercado por uma indiferença travestida
por imensa áurea escuro-cinza bem no meio da sala...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O VELHO ENUMERADO

Flávia gosta das coisas certinhas
Regina prefere àquelas que ainda estão por fazer
Lúcia pelo tapete da sala fica esparramada
Silvia diz que vai logo ali depois volta
só que nunca mais volta
e Regina espia um pouco pela janela
depois cochicha alguma coisa com Flávia
e inspeciona o fundo de um copo
disfarça mais ou menos olhando outra vez lá pra fora
Flávia solta um peido
e ri
Lúcia pega uma revista folheia um pouco depois desiste
olha pela porta de um jeito meio triste
isso me deixa meio preocupado
logo penso na Silvia
e na chuva que deve cair daqui à pouco
sei que Flávia e Regina irão sair juntas
sopra uma brisa boa da praia
e elas dizem que querem curtir melhor o mar
Lúcia também já foi embora
o vento balança a cortina na janela
Flávia e Regina agora são apenas duas silhuetas
percorrendo a areia noturna
nem sinal de chuva
então porque me preocupar?

RISADAS DUBLADAS

não é pelo fato do mundo estar se despedaçando
nem pelas pessoas dançando à beira da morte
o que deprime mesmo nessa vida
são essas risadas dubladas

bem que tentei baixar o volume da televisão
mas o rádio transmita a mesma coisa
e mesmo com o rádio desligado
minha cabeça continuava transmitindo a programação

e as risadas dubladas ecoaram noite a dentro

meu deus - eu pensei - e agora?
e me atirei pela janela
e enquanto meu eu desesperado caia
uma antena parabólica perpassou-me o corpo e travando a queda

será que nunca vou ter meu descanso
pensei de soslaio de tão sozinho que tava
e tinha ainda bem no meio de um nada
um pássaro que me bicava a ideia

mas o filme acabou antes mesmo que a noite acabasse
e todo o cinema dormiu mais feliz naquele dia
e finalmente a queda nunca mais foi filmada
tudo por conta de uma risada dublada

meu corpo dormente repousa hoje em dia
no alto de um edifício
interligado à uma antena parabólica
você pode assisti-lo todo lá em cima
a transmitir-se por ondas cadavéricas semi-mortas...

sábado, 17 de dezembro de 2011

A ESTRADA

ao longo do dia
carros solitários seguem por uma estrada
as pessoas primeiro acenam
depois ficam mais afastadas
cada uma contemplando
a própria palma das mãos vazias
algumas vezes alguns carros passam
mas nem queira vê-los
são tão feios
brancos, cinzas e pretos,
ou vermelhos

silêncio
que um ônibus para

ninguém desce...

BLACK OUT

No começo da noite - acabou a energia na cidade!

e cada solitária pessoa,
apanhou a sua vela.

e ficou atrás dela

projetando sombras imensas,
garras estranhas,
chifres de bode,
olhos de raio laser verde

nada entretanto,
que se comparasse à lua...

CONTROLE REMOTO

As teclas do controle remoto são macias
umas maiores
outras bem pequenas

um adesivo metálico colado nas costas
tampa de plástico cinza
códigos de advertência
num formato que se ajusta à mão

uma luz que acende quando liga
estando ele apontado para a tela
que transmite as imagens em flash
dos vidros de katchup...

A COISA

Dois caras num ponto de ônibus
um olha para o outro
o primeiro deixa cair alguma coisa
quase que imperceptivelmente

O segundo olha para os lados
certificando-se de que ninguém mais
está observando
enquanto o outro parte
se afastando

Não há mais ninguém no ponto
além dele
as ruas estão quase desertas
é fim de tarde

Ele chega mais perto
e apoiando-se numa perna
revira aquela coisa com um guarda-chuva
enquanto o outro ainda escuta e explosão

e no céu apontam
milhares de pedaços mágicos vermelhos incandescentes...

sábado, 3 de dezembro de 2011

CINCO

Teve uma época em que eu conhecia
uma menina que não tinha um olho
era legal
chegamos a ficar juntos até
e quando saíamos nas nossas andanças noturnas
ela guardava nossos cigarros
dentro do buraco do olho
dizia que olhos de vidro eram um saco
e que viviam caindo quando ela bebia
lembro de um dia ter comentado
que éramos cinco
pois refletíamos três imagens nossas
ao todo
e que talvez por isso tivéssemos tanta sorte
afinal de contas
números pares nunca são muito bons
usando essa tática
de apostar somente nos ímpares
ganhávamos na loteria
pelo menos duas vezes por ano
o dinheiro a gente sempre doava
para instituições de caridade
a sociedade protetora dos animais
o lar dos velhinhos
coisas desse tipo
nunca ligamos para dinheiro
e continuávamos nas nossas furtividades noturnas
becks e mais becks olho à dentro
e eu enfiava também a minha língua ali dentro
dentro do buraco do olho
e ela ria tanto e tão alto
que todos os moradores dos prédios
saiam nas sacadas
e ficavam meio de cara
só por a gente fumar nosso beck...

sábado, 19 de novembro de 2011

A VISITA DEFINITIVA

Chegou certo dia 
E nunca mais foi embora
Vive empoleirada feito um pássaro
Na quina do guarda-roupa
Vestida com um paletó preto cinco números maior
Depois bate as asas durante um tempo
E acaba sempre por derrubar
Imensas penas de carvão 
Por todo o mais branco lençol revirado da cama...

UM KARAOKÊ DE LOUCURAS TRISTES

Antes que alguém dissesse alguma coisa
Ele disse
Primeiro foi até o microfone e vomitou
E apoiado um pouco naquilo
Meio bêbado
Fez das palavras pouco caso
E do discurso
Mero método de tortura
Se disse coisas certas ou erradas
Quem saberia?
O certo e o errado são irmãos gêmeos siameses
Que se fundem muitas vezes
Movidos pelo tempo e pelo espaço somos todos
Como aquele pobre homem
Bêbado de uma loucura triste...

domingo, 30 de outubro de 2011

COISAS SUJAS

os imundos são sempre os melhores
não importa o que você pense a respeito dos limpos
os bem passados não passam de enormes desperdícios de energia
24.000 BTU´s por hora
verdadeiras cadeiras vazias...

um imundo chega para o outro e vai logo comentando:
- que enorme monte de merda acumulada,
que gigantesco rio de mijo -
e todo tipo de bobagens
e tantas dessas besteirinhas, lembrancinhas... -

coisas sujas que se movem
são mais que trens fantasmas urbanos
e sofás de dois e três lugares boiando
e enceradeiras quebradas
e uma pilha de pneus...

da sujeira surge algum tipo de força
que inevitavelmente terá de persistir
já da limpeza emana sempre mansidão
copos cristalinos
cheios de águas minúsculas
prontas para ficarem sujas...

A CONFERÊNCIA DOS VAMPIROS

eles chegavam aos poucos
e ficavam um tempo parados
olhando para o chão
de tempos em tempos viravam umas taças metálicas de vinho
se entreolhavam como uma espécie de conversa muda
tinham unhas tão pontudas quanto as orelhas
e enormes dentes afiados
escondidos debaixo de sorrisos sinistros
e todos usavam uma enorme capa preta
de onde tiravam pequenos pedaços de uns ossinhos
tão brancos
e ficavam remexendo aquilo
como se fossem preciosidades
ou lembranças
e eles tinham olheiras profundas
vagamente lembravam gárgulas
pequenos diabos estranhos
que entravam voando por uma janela
naquela que talvez fosse
uma festa fúnebre
a noite era nublada
e corujas também participavam
por dentro das entranhas das trevas
depois de um tempo que pareceu muito curto
embora pesasse meia tonelada
um a um, em silencio foram embora
cada qual carregando sua pasta de amostras de sangue
e anotações cadavéricas
letras góticas
num novo enfoque maldito...

domingo, 23 de outubro de 2011

MANHÃ DE DOMINGO

pensou que fosse pequeno
o grito no leito da cara
pensou que não passasse
de um gosto amargo de pinga
mas era
era a joia suprema
um diamante de dúvidas
dentro de uma cartola vazia
como era a vida
orfã e boiando nas fritas
num rio amargo de tíbias
que mais pareciam
dentes postiços armados
pra riba
como diziam as filhas
de todos os maiores pecados
Luciola
Angelica
mulheres repletas de vida
carregando malas
pesadas
num dia frio de chuva
serpentes
lanternas
Testemunhas de Jeová.... 

VEADOS

Passa Fábio
Passa Atílio
Passa Falcão
Passa Hepaminondas
Lúcio
Rodrigo
Gigavão
Passam todos serelepes
Bichinhos das estepes
Saltitando 
Como coelhos
Veados
Panteras rosas...

sábado, 22 de outubro de 2011

A DOR HUMANA

Imensa é a dor humana
contemplando o abismo vazio
onde as pessoas às vezes não passam de coisas
cemitérios em ilhas de plástico e tomadas
e o computador é só essa outra coisa ligada
e algumas pessoas inteiras também ligadas
que na garganta da noite que engole madrugadas
as veias de sangue são muito finas
e sempre acabam em nada.

sábado, 3 de setembro de 2011

O TOMBO NA RUA

O dia em que eu caí na rua
foi o dia em que a guia
translúcido meio-fio enviesado
precipitou-se em precipício

e as minúsculas pedrinhas do asfalto
que do alto
pareciam tão escuras

dentro do rosto
magníficas, perfeitas
fincaram como agulhas

cintilando reluzentes
como minúsculos diabinhos de piche
formigas-miniaturas...

COSMÉTICOS-PERFEITOS

Tem um cara que diz coisas grandes
Imensos balões mágicos de vapor
Aeronaves alfabéticas multicores
Bocarra monstra do tamanho da lua
Incríveis flashes lúdicos de uma luzinha cinza
Barbitúricos sonoros de felicidade
Ecoares magníficos certeiros
Foguetes angelicais
Vendedores baratos...

sábado, 16 de julho de 2011

TRIPAS

brotam sementes
de dentro do varal serpente
e vazam
camisas estranhas
camisolas com escritos de sangue
lantejoulas de metal
prendedores como estacas de vampiro
frases macabras silkadas
camisetas vermelho-pretas
mórbidas meias-calças coloridas
frutas entranhas...

SANTA LUZ

no prédio inteiro
uma única luz acesa
a meia altura
dentro de um cômodo amarelo

a quem te orienta
parca luz que bruxuleia
será ao tédio da vida
ainda a espera da morte?

terça-feira, 21 de junho de 2011

MULHER

Ela ultrapassa Iguaçu
ultrapassa Paris
ultrapassa a lua
e sobe
fica um tempo por cima dos meus ombros
e equilibrando-se com os braços abertos
flutua
quicando pelos cantos do teto da cozinha
e canta tantas coisas malucas
e puxa toda a água com um rodo
e planta umas sementinhas
que logo depois viram mudas
e tempera uns negócios estranhos
dentro duma panela preta com um pentagrama pintado de esmalte no fundo
e tira fotos dos passarinhos na rua
sentados num cordão colorido
quarta-feira à tarde
um sol de trincar estruturas
depois
chega com asas amarelas
5.000 pés de altura
granizos ao vento
beijos supersônicos
outras sementes pra arar a terra
mãos vazias que contornam a enxada
Allan Kardec
sementes de mostarda
pirâmides de pedrinhas
a forma exata de pássaros voando
quando olhadas de longe...