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quinta-feira, 16 de junho de 2011

MINGAU E O JUIZO FINAL

A cidade ferve e eu acho que não tenho mais nada a ver com ela, por isso fiz minha mala e estou dando o fora essa tarde antes que as coisas peguem fogo. Segundo as previsões a temperatura deve chegar aos 34º lá pelas 3 da tarde e os peixes contaminados irão saltar de dentro dos rios direto para as bocas das pessoas e será como o dia do juízo final. Pelo menos foi o que contaram no jornal da manhã, acordar mais cedo tem suas vantagens, ou será que tudo não passa duma grande mentira? Dizem que os peixes e uns crustáceos mais resistentes às mudanças do tempo andam se alimentando de restos de baterias de celular e de pilhas velhas que são descartadas nos leitos dos rios e isso tem feito com que essas espécies inofensivas desenvolvam um tipo de organismo de mercúrio e níquel misturados. Outro dia mesmo saiu uma matéria num jornal sobre uns pescadores que usavam pequenas piavas para acender os faroletes e que os índios ianomâmis usavam tilapias para recarregar seus aparelhos de telefone celular, inclusive na matéria havia uma entrevista com um índio que reclamava, usando palavras nem um pouco amistosas, sobre a alta conta de telefone que andavam recebendo na aldeia, segundo ele, tudo por culpa de sua mulher, uma rechonchuda e sorridente ianomâmi deitada numa rede numa longa conversa interurbana.
O ônibus sai as 2:15 da tarde e lá pelas 4 devo estar numa distancia mais ou menos segura. Comprei a última passagem num ônibus fretado até Fama, no sul de Minas, de lá pego um barco e sigo até uma pequena ilha, na verdade um banco de areia no meio da represa onde devo passar os próximos dias, até as coisas se acertarem por aqui. Levo uma barraca, saco de dormir e comida para três meses, aprox. É ônibus de excursão escolar e só me deixaram ir junto porque um dos alunos cancelou a viagem na última hora. Espero conhecer admiráveis menininhas de 16 e 17 anos, mas por precaução arrumei um fone de ouvido dos grandes. Espero que tenha banheiro dentro do ônibus e espero que ninguém se incomode se eu fumar no banheiro, é que sempre fico meio apreensivo em viagens, principalmente de ônibus, e principalmente por estradinhas de terra, pois é, esqueci de contar, é uma viagem de estudo pelo interior do país, por vias secundárias e terciárias, onde o sul de minas será apenas uma breve passagem, visto que pretendem finalizar o percurso em Erexim, no Piauí e de lá parece que vão seguir de avião até a Disney ou alguma coisa parecida. Não tive como escolher coisa melhor, esse foi o único ônibus que sobrou da frota inteira incendiada na semana passada. Só lá na rua foram cinco, e uns moleques logo correram com uns espetos improvisados com batata-doce e salsicha, sequei dois pares de meias numa dessas imensas fogueiras. E dormi de pé aquecido pelos ataques extremistas. Quando acordei havia cinco esqueletos de ônibus como pedaços de carvão pela rua e crianças de rosto sujo brincando de excursão no que sobrou daquilo. O bom de ser criança é isso, o fim do mundo sempre parece como um parque divertido. Quando crescemos todos os parques se parecem com o fim do mundo.
E eu tive que sintonizar o rádio enquanto espero a hora de partir rumo à rodoviária, e parece que dois prédios desabaram no centro da cidade e por sorte não havia ninguém dentro deles, isso foi ao meio-dia e todos estavam na fila do cachorro-quente agora as equipes de reportagem reviram os escombros na esperança de encontrar alguma possível vítima que possa ser entrevistada, antes que uma das reportagens fosse para o ar, pegaram um menino que circulava pelos arredores e pediram para que ele esfregasse um pouco de fuligem no rosto e quando a matéria enfim entrou ao vivo tudo não passava duma entrevista arranjada com um tom milagroso de sobrevivência humana e vontade lá de cima, e ainda perguntaram para ele o que achava de tudo aquilo e ele olhou para a câmera e deu um arroto, pois esqueceram que além do cachorro-quente era dia de promoção da coca-cola e tentaram cortar a última parte, mas era tarde e já tinha ido para o ar assim mesmo e muitas pessoas começaram a rir da inocência disso no meio daquilo tudo quando um repórter retirando um tijolo de cima duma pilha enfiou a cabeça num buraco perguntando se tinha alguém ali.
1:14, melhor eu dar o fora agora, é quase uma hora de caminhada, ônibus não tem, trem também não e táxi só para com mandato judicial. Apanho minhas coisas e as empilho às costas, deixo uma fresta de janela aberta para o gato e comida para 20 semanas, eu volto eu falo, mas ele nem liga, se espreguiça debaixo do sol num canto perto do telhado e eu tenho um pouco de inveja dele e da sua indiferença e eu sei que tento a todo custo ser assim, mas o máximo que já consegui foi arrepiar o cabelo e enfiar um alfinete na orelha, depois me cansei de Sex Pistols e quando descobri que os filósofos todos se contradiziam não soube por anos onde enfiar a cara para tentar esconde-la disso que todos ou quase todos, chamam de mundo. Melhor dar o fora.
Tchau Mingau. Fica bem.
Prometo que volto.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

NA CIDADE

A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas, como pracinhas esquecidas em finais de ruas nunca antes visitadas, como o fio do sorriso que falta a toda servidão humana impregnada de um medo estúpido de sair da linha despencando em vertigens asfaltadas. É O ônibus lotado acelerando com pneus mergulhados em poças de lama que se formaram com a chuva e executivos televisionados por helicópteros em cima das pontes pedindo ajuda. O congestionamento e a infinita soma das possibilidades de declínio absoluto, a risada gripal do ultimo, a fila dos desacordados pontualmente as 5.
A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas. O dedo que aciona o botão que aciona as comportas que aciona as camas. A flor morta dentro de um copo com água e o besouro a voar em círculos pela janela fechada. Na forma inexata de nuvens esfumaçadas e no fundo da cabeça um grilo, o cantar elétrico ininterrupto por estradas de 110 volts numa odisséia mental que é a televisão vomitando a imagem do papa bem no meio do tapete da sala inundada por pequenos terremotos caseiros em forma do Diálogo. Blind Lemon Jefferson, Son House e Lonnie Johnson
A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas, seja pelo tijolo, seja pelo concreto avança cada homem dentro de sua própria guerra, e toda aquela história ensolarada a respeito dos potes de margarina não passava de mentira, uma lenda urbana qualquer sobre a construção parcelada da vida, dez vezes sem juros no cartão de crédito com 0% de entrada, toda a velha ladainha, baldes com 5 litros do que quer que seja, homens uniformizados que se levantam rasgando elogios confusos para passagens bíblicas que deveriam ter sido decoradas no inferno, na Terra do Fogo ou na Sibéria, mas nunca perto daqui.
A espontaneidade esparramada feito grama por paisagens urbanas como brindes de final de ano: um chaveiro sem chave nenhuma, um calendário cheio de dias de semana e canecas completamente ocadas, como o sorriso para a foto ou ampulhetas que foram todas corrompidas por esse zumbido de além-vida quando a única urgência possível é agora e que amanhã é nada além de febre. Já faz tempo que não temos muito tempo a perder com tudo isso, com todos esses caras estranhos, tamanhos diferentes e caminhos distorcidos pelo acelerar da utopia, cegos guiando cegos e carros em direção à gondolas cheias de roupas e crianças escondidas, um som qualquer para ser aumentado em dias para serem vividos. Tantas bocas à espera de beijo e tantas praças ainda vazias refletidas pelo retrovisor da mente no meio de certas curvas intempestivas disso que tanto nega tudo o que vale a pena.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A MORTE DE JESUS PEIXE

Certo dia, cansado de toda a estupidez gratuita, o filho de Deus desceu na terra pela segunda vez para pedir uma trégua aos monstros vorazes que sadicamente torturavam e matavam todas as criaturas puras.
Sentindo-se tremendamente impotente ante a enorme desgraça que seu pai criara, convertendo-se numa besta perdida, o filho de Deus procurou ajuda psiquiátrica, mas os médicos nunca tiveram a cura.
Cambaleou bêbado entre centenas de desabrigados, enfrentou tormentas e hostilidades até que foi acolhido por dois chineses que o obrigaram a trabalhar 20 horas por dia a troco de nada.
Fugiu disfarçado de peixe, dentro de um prato de comida estragada que escorria pelo cano numa tarde de domingo. Encontrou mais hombridade nos ratos e nas baratas do que nos homens e teve a companhia dos vermes enquanto eram servidos banquetes com as carnes apodrecidas que escorriam lá de cima.
Numa tarde qualquer Jesus Peixe nadou até o rio de merda e foi percorrendo esse rio que chegou até o mar onde foi morto por pescadores japoneses com uma lança que perfurou o olho e o fígado divino.
Silêncio.
Hordas de japonesinhos amontoados em volta de um tatame devoram a carne morta agora. Um deles encara por um minuto a cabeça de peixe exposta, olhinhos inertes piscam para ele como se quisessem confidenciar um segredo. Mas agora é tarde, um garfo ocidental remexe o pequeno cérebro danificando todo o arquivamento das memórias e idéias divinas.

terça-feira, 16 de junho de 2009

JURANDIR ARCIPESTRE E A FINAL DO CAMPEONATO CELESTIAL

Quando Deus morreu de tuberculose em meio ao rigoroso inverno que atravessamos nos idos de 46. Todos os grandes homens do mundo passaram a discutir quem dentre eles seria o responsável pela conclusão da Obra. A reunião, feita a portas fechadas no salão oval do palácio celestial, durou sete dias e sete noites sem que chegassem a um consenso. Napoleão gesticulara durante todo o tempo, bradando suas manias de grandeza. Aristóteles falava pelos cotovelos e nem Lao Tzu muito menos Maomé conseguiram conte-lo quando Alexandre o Grande com toda a pompa e estardalhaço que lhe eram peculiares, entrou na ante-sala, lá pelo começo do oitavo dia, puxando pelo braço magrelo Jurandir Arcipestre, jovem atacando do Juventus de Sorocaba, apresentado pouco depois como o provável mais novo reforço do time de futebol profissional da cidade de Atenas, para desespero de Sócrates, Aristóteles e Platão – a ala grega da conferência era de Oscar Wilde o voto de minerva em virtude de sua injusta condenação. Corria por fora, também, o caso da menininha chinesa capaz de saltar uma distancia de dezoito metros, indicada a santa pela bancada do Vaticano e a estranha aparição de duas novas luas avistadas de um ponto qualquer na Nova Zelândia. Todas essas questões eram urgentes e o nome do futuro executor da Obra dependia do resultado da votação. Foi logo depois que o poeta inglês rabiscou de forma meio tímida uma folha de papel e a entregou para Moisés que os resultados apareceram no placar:
Menina Chinesa – Santa: 20 votos / Não Santa: 21 votos.
Padres e Papas se retiraram da sala enquanto a duas novas luas eram rebaixadas a condição de satélites espiões soviéticos.
Faltava, no entanto, o resultado final da votação de Jurandir Arcipestre como novo atacante do Atenas FC – o silêncio no salão era enorme elevando o suspense a tal ponto que Ringo Starr Não Nascido teve que ser levado às pressas para um outro lugar mundano onde lhe confiaram um outro nome e cinco mil moedas de ouro para que nada revelasse sobre o ocorrido.
Aconteceu que Jurandir Arcipestre foi eleito atacante da equipe Grega, por 21 votos a 20 para felicidade de Alexandre O Grande empresário da jovem promessa.
Jurandir jogou no domingo seguinte, marcando três gols contra uma equipe que tinha Aristóteles como técnico, rebaixando-o a segunda divisão do campeonato celestial.
Naquele ano o Atenas FC levou o caneco e seus dirigentes foram condecorados pela Virgem Maria.
Por um curto período a paz celestial esteve conturbada por uma agitação sem precedentes a respeito da vaga deixada pelo falecido Senhor.
Mas não demorou muito e H. Ford dono do time repassou suas ações para um empresário italiano ligado à máfia e entre tantas lambanças que aconteceram depois, incluindo a falência do time de Atenas, a condenação do tal empresário por desvio de dinheiro e a volta de Jurandir à terceira divisão do campeonato paulista, dois anos depois – os maiores homens da história esqueceram ou não quiseram nomear o segundo dono do mundo e desde então seguimos assim, meio a esmo, contando com a sorte nos empurrões do destino.
Atualmente Jurandir mora em Atibaia e é bisavô de duas crianças bonitas.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A MÍSTICA

A mística entra na sala. Você permanece em silêncio e continua sentado procurando alguma coisa para assistir. Ela revira uma bolsa de pano e tira objetos trabalhados em madeira e depois começa a falar em socialismo e auto-ajuda. Ela não passa de um embuste, um embuste maior do que a televisão que você odeia embora te faça alguma companhia. Você aumenta um pouco o volume – tenta se concentrar com certo esforço e desiste, pois a mulherzinha mística fala em Jesus e Maria e todas essas coisas tristes e bonitas e ela sabe soar um pouco poética. Então você para de trocar os canais e por um minuto olha para sua cara, olhos feito duas pedras de gelo vagando no meio de uma face vazia onde a boca repousa oca guardando ecos de telenovelas e anúncios de liquidação – ela conta os trocados da própria vida e puxa ídolos de plástico por flácidos braços que se descolam do resto dos corpos que borbulham embaixo do sol. Você sabe que não passa de tédio, tédio numa estúpida forma humana materializada ao lado da poltrona – o último lugar onde você esperava inebriar-se com um pouco de paz, mas ela fala, fala e gesticula, salta e pula tão desesperadamente e você sente certa pena desses pobres irmãozinhos desamparados – merda para todos eles – você pensa quando se engasga com o controle remoto, mas não fala nada, espera não magoar a pobre figura ingênua, paradoxal e certamente perigosa que estica os braços para o seu aquário pensando tratar-se de uma outra vitrine estendida dentro dos corredores do próprio delírio – Merda – você repete, propositalmente em voz alta – Foda-se todo esse seu lixo intelectual – ela então se cala olha para fora e sai ao encontro das luzes de néon como uma mariposa perdida.
E você fica pensando, equilibrando as próprias palavras - que talvez ela tivesse pintado tão urgentemente todas suas figuras místicas com um pedaço de arame e tinta de tecido, arranhando as paredes do pensamento até acreditar naquele alívio superficial a escorrer-lhe dos ouvidos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

ENTRE, LÚDIO

- Entre, Lúdio – ela disse assim que o viu plantado ao pé da porta.
Entrou meio a contragosto, mas entrou. Emburrado, ficou parado em um canto, olhando toda aquele bagunça.
Ela não entendeu direito e afinal de contas nem deu lá muita importância, embora houvesse alguma coisa muito importante acontecendo, ao menos para Lúdio, pois seu nome não era esse. E pior, a coisa que Lúdio mais odiava no mundo era quando alguém errava o seu nome.
Depois de cerca de trinta minutos de silêncio, Porta parou a sua frente perguntando – Tem alguma coisa de errado, Lúdio? – Você errou o meu nome – ele disse – Meu nome não é Lúdio, meu nome é Linha – e mostrando uma língua esverdeada horrível, saiu pulando, meio endiabrado pela sala.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A VINGANÇA PARTICULAR DO CAMINHÃO UVA

(da série: Estórias de Autoajuda para Mentes Eletroeletrônicas e Afins)

- Pobre caminhãozinho – sussurravam umas pessoas às outras enquanto ele, cabisbaixo de tão triste, circulava de maneira apressada e levemente desajeitada entre o tráfego de veículos e transeuntes ao cair da tarde.
Era sempre assim, nem bem o sol se escondia e lá vinha ele atrasado, como em todas as outras vezes, era sempre o último que chegava ao destino - onde trabalhadores impacientes o esperavam com sorrisos de escárnio contidos para dentro de suas bocas fechadas.

E não importava que a entrega fosse muito longe, logo ali ou mais ou menos perto, o coitado do caminhão uva era sempre o último a chegar. A sua frente em questão de agilidade e pontualidade estavam sempre os intocáveis veículos do mais alto grau de existencialismo mecatrônico. E não importava o quanto o caminhão uva os interpelasse a respeito do segredo para tamanho desempenho, eles sempre tinham as mesmas respostas na ponta da língua:
- Ora bolas, caminhão uva, cada um com seus problemas –

E seguiam os dias assim, o caminhão uva era sempre o último a chegar enquanto os outros, distraídos dentro de longas conversas e gargalhadas solenemente ignoravam todas as perguntas que lhes eram feitas.
- Um dia eu descubro – jurou o caminhão uva para ele mesmo (na verdade o caminhão uva era um caminhão que transportava vinho equatoriano para pontos espalhados dentro da América do Sul).

Um dia então o caminhão uva chegou ao destino esperado (com 45 dias de atraso) e resolveu esperar pelos outros caminhões que pontualmente, calculou, deveriam passar somente dois dias depois por aquela cidade. E ele ficou esperando pelos outros, acampado embaixo da tenda de um velho circo abandonado. Dois dias depois chegaram logo de manhãzinha, distribuindo pompa pelas ruas da cidadezinha encravada no meio de um nada e que agora reluzia ao brilho de todas aquelas máquinas novinhas e cheias de exercício de mecânica.
Estacionaram em frente a um supermercado de onde os funcionários, todos vestidos impecavelmente de branco, começaram a descarregar o conteúdo que tais caminhões transportavam.

E qual não foi a surpresa para o humilde caminhãozinho uva quando descobriu que todos aqueles caminhões carregavam toneladas e mais toneladas de esterco e que os funcionários, todos muito ágeis e bem treinados, revezavam-se na tarefa de descarregar o esterco, empilhando-o em carrinhos de mão que imediatamente eram arrastados para dentro do mercado onde lá adiante, junto aos enormes balcões frigoríficos, um fila que dava uma volta inteira pelo estabelecimento se agitava, ávida pelo esterco que sumia das prateleiras antes mesmo que pudessem renovar o seu estoque.

Então o caminhãozinho lentamente saiu rodando, outra vez, mas por estradas diferentes agora, no ritmo e na levada dele, da maneira que achava que devia ser feito, sem cobranças ou preocupações de qualquer tipo, tava tudo certo – ele jamais se sujeitaria àquele monte de merda – refletiu um pouco e só então suas rodas brilharam enquanto rodavam pelo asfalto quente da 506.

E no embalo de uma descida acelerou mais forte e nunca mais parou.

domingo, 12 de abril de 2009

O RETORNO DE PACO JUAREZ TOMADA

Paco Juarez Tomada, personagem folclórico das historias em quadrinhos mexicanas da primeira metade dos anos 80 materializou-se em forma de profeta urbano na esquina da Rua Augusta com a Rua Antônio Carlos, em plenos anos 90. Com uma camiseta de Kurt Cobain e um bigodinho estilo Clark Gable, Joselito Sanchez, último reforço do Fluminense, contratado de um time paraguaio da segunda divisão, sacudia sua guitarra imaginária, enquanto Josimar, o quarto-zagueiro, corria feito besta ao encontro do pessoal parado na entrada do hotel. O time estava de passagem pela capital paulista para a disputa do jogo contra a Portuguesa válido pela 16ª rodada do campeonato brasileiro.
Joselito agitava a cabeça e se contorcia, chutando, entre um rodopio e outro, a lateral de uma banca de jornal que por ali ficou até mais ou menos abril de 2001, época em que Josimar foi contratado por um time italiano cujo presidente era parente do dono do hotel onde Kurt Cobain tentara o suicídio sete anos antes. Apenas duas semanas depois de Oscar Garcia, o roteirista de praticamente todas as histórias em quadrinhos de Paco Juarez Tomada ter sido demitido da editora onde trabalhava por conta de um acordo da editora com uma franquia marroquina, cujo time principal daquele ano tinha disputado com o Fluminense a contratação de Joselito Sanchez no mesmo ano em que o Pavement fez seu Slanted & Enchanted.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

OS CEGOS

Observavam o mundo através de uma janela cujos vidros empoeirados distorciam as imagens externas, de modo que as pessoas não passassem de vultos.
O psicólogo que participava do grupo bem que tinha tentado remover a poeira do vidro com um pedaço de flanela laranja, mas foi impedido pelos seus companheiros que achavam a intervenção auto-ajuda demais para os rumos da estória.
- Ta faltando emoção, bicho – disse um sósia de Roberto Carlos, com um palito de dente no canto da boca.
Enquanto o juiz discursava sozinho numa mesa ao lado.
E praticamente ninguém do outro lado notou enquanto os cegos em trova soltavam impropérios ao mundo.
Talvez porque eles estivessem ocupados demais para perceberem que na verdade não havia ninguém atrás da janela.

sábado, 14 de março de 2009

O CIRCO A CÉU ABERTO

Quatro caras chegaram ao mesmo tempo no céu, da porta São Pedro já foi logo avisando que só tinha uma vaga disponível, pois o desastre de avião que acontecera no dia anterior tinha deixado o paraíso com todos os quartos ocupados. Só restava um no andar térreo perto da lavanderia. E pra piorar a situação o Diabo já tinha mandado recado que tava precisando de mais gente no inferno, recentemente ele comprara um grande lote de terra do Judas Iscariódes e precisava ocupar aquele espaço todo que até então permanecera vago.
Os quatro homens então começaram a disputar a única vaga restante distribuindo tapas e palavrões uns nos outros. Era um empurra-daqui-empurra- de-lá danado até que São Pedro interveio: – Escutem só uma coisa. – ele disse com o dedo indicador apontado para cima como se fosse um desenho animado – Se vocês querem mesmo entrar no Paraíso precisam me provar que são merecedores da vaga.
– E como iremos provar? – perguntou um dos homens parado embaixo da barba do santo.
– É muito simples, contem-me quem vocês eram em vida, o que fizeram, o que construíram ou ajudaram a construir, darei a vaga para aquele que for o mais foda dos quatro.
Nem bem terminou de falar, um dos quatro homens tomou a frente do grupo e já foi logo falando a plenos pulmões: – Eu fui um cara realmente foda Seu São Pedro, fui tão foda que me elegeram presidente do meu pais dezenove vezes seguidas, o povo me adorava, ainda adoram, veja só aquilo, estão todos de luto pela minha morte, dezenove vezes, sabe o quê significa isso Seu São Pedro? São 76 anos servindo o meu país, 76 anos servindo o meu povo, a minha gente...
antes que terminasse de falar, São Pedro interveio. – Tudo bem, já vi que você foi um cara foda mesmo. Agora, o próximo, então veio o outro homem, esse era mais contido que o primeiro, falava num tom mais baixo e moderado:
– Eu fui um grande astronauta, Saint Peter (falava inglês), talvez o maior de todos que já pisaram a terra, e devo dizer que esses pés que vês agora, já pisaram incontáveis solos de incontáveis planetas até hoje desconhecidos em grande parte do mundo, consertei sozinho satélites que vagavam inutilizados a esmo pela galáxia, entrei em contato com dezenas de seres vivos estranhos de todas as partes do universo, de tudo quanto é tipo de planeta que se possa imaginar.
– Realmente vejo que também é um cara fodisticamente foda. - São Pedro falou e chamou pelo seguinte. O terceiro homem veio e fez um número de mágica, um número incrível que nenhum dos homens presentes, incluindo São Pedro, jamais tinha visto, primeiro tirou uma cartola de dentro de um coelho, depois tirou uma manga de dentro de uma pomba, tirou dedos de dentro de um baralho, bocas de dentro de panos coloridos entrelaçados.
– Trata-se do melhor número de mágica que já vi. – disse São Pedro assim que terminou a demonstração. – Também és foda. – completou e anotou na prancheta junto com os outros nomes. – O último, por favor, então veio o último dos quatro homens, abrindo espaço entre os três primeiros, era um baixinho, não devia ter mais que metro e meio, não possuía muitos dentes na boca, era meio corcunda, enrugado, cabelo ralo e desalinhado. Mesmo assim sorria.
- Eu sou poeta. – ele disse, e prosseguiu
– Sou poeta, porém nunca escrevi um único livro, tampouco um poema ou uma poesia e jamais escrevi um único verso em toda a minha vida.
– E o quê faz do senhor um poeta então? – São Pedro inquiriu.
– Eu sou um palhaço, meu trabalho era fazer criança sorrir, na minha terra me chamavam de poeta, porque diziam que palhaço e poeta é a mesma coisa, só o lugar que toca o coração é diferente.
Então São Pedro curvou-se diante do homem e num gesto de admiração lhe disse: – Pode entrar no céu, pequeno homem, a vaga é sua.
– Não, São Pedro, não é não. – disse o mínimo homem para o espanto dos demais.
– E por que não?
– Porque não sou foda. Disse o homenzinho, virando-se da entrada do céu.
Contam que, depois disso, São Pedro acabou admitindo o mágico na única vaga que restava no Paraíso. O Astronauta foi viver junto com as estrelas e o Político foi mandado direto pro inferno,
pois Deus é anarquista.
Contam ainda que o homenzinho acabou topando com o Diabo em pessoa na entrada do inferno, ficou um tempo por lá, mas as crianças gostaram tanto dele que foi expulso duas semanas depois. Parece que arrendou aquele terreno que o Diabo tinha comprado de Judas, nele montou um imenso circo, um picadeiro.

Parte do diálogo cortada da versão original dessa estória:
- Foda é meu pai, Seu São Pedro, eu sou fodinha!



Moral da história: existe circo após a morte.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ESSES ESTRANHOS ESPORTES MODERNOS

Antes de começar a contar o caso seguinte e preciso esclarecer três coisas:
1 – O ser humano é estúpido por natureza, ainda que tentemos afirmar ou provar o contrário.
2 – Não existe salvação possível para nenhum de nós, estamos condenados e seremos varridos daqui, mais cedo ou mais tarde.
3 – Os acontecimentos que seguem nada têm a ver com o que acabei de escrever acima.

- Chegará o dia em que o esporte profissional estará completamente contaminado pelo vírus da manipulação financeira, nesse dia todas as modalidades estarão rebaixadas à condição de meras “lutas-livres-disfarçadas” dessa forma, inevitavelmente condenadas à extinção – foi com essas palavras e o arroubo de fúria e alivio que se seguiram à elas, que Madgá Beneé, Supremo-Rei do império Etíope recém chegado as terras Israelenses, deu inicio ao septuagésimo nono Jogos Olímpicos Bélicos da era de Aquário.
A multidão avançava na direção do centro do enorme campo onde, minutos antes, crianças vestidas com antigas roupas de palhaço camufladas, haviam soltado milhares de pombas cinzas, pretas e brancas, que tombaram mortas, abatidas pelo forte calor tropical de Tel-aviv, como parte da luxuosa cerimônia de abertura.
Havia nesse centro, uma enorme cratera, cuidadosamente cavada no chão úmido por máquinas que mais pareciam pássaros metálicos enraivecidos, essas máquinas eram aquisições que a Suprema-Corte da Etiópia havia adquirido junto ao Conselho-Chinês-de-Benfeitorias, enquanto chineses, cristãos-ocidentais e judeus recém saídos de territórios russos travavam uma sangrenta luta no mar báltico pelo controle das terras nórdicas.
Uma criança perfurou o olho da outra com uma estaca, dentro do circulo cavado no chão, enquanto a multidão aglomerada aplaudia e Magna Beneé devorava pedaços de uma torta feita a base de farinha e água.
Espanha 1x0 Marrocos. Foi o placar final. A criança ferida foi retirada do campo de jogo por um guindaste em forma de X e logo depois atirada por um canhão em direção aos trapezistas japoneses que se equilibravam acima de lagos infestados por pequenos insetos carnívoros recém-fabricados pela indústria indiana.
Dois japoneses caíram e foram devorados enquanto o projétil humano cruzava os céus tingidos de uma cor forte.
Japão 1x3 Índia.
Marrocos 1x0 Japão.
Uma equipe de pesquisadores alemães caminhava pelas terras da Antártida, a procura do último pássaro-vermelho vivo. Um deles ligou um pequeno rádio adaptado ao seu capacete estilo romano, enquanto o líder da expedição anotava estranhos arabescos numa folha de cartolina, dois homens comentavam o resultado das primeiras partidas dos Jogos Olímpicos num misto estranho de desdém e nojo, enquanto redes de televisão americanas transmitiam um concerto de rock and roll em protesto contra a extinção dos pássaros amarelos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O PAÍS QUE NÃO DEU CERTO

Quando Klaus e Diamante ocuparam uma plataforma petrolífera abandonada bem no meio do oceano Indico em agosto de 1993 e decidiram que ali iriam fundar um país, com base no argumento de que a plataforma, uma antiga construção que pertencera a uma refinaria australiana recém-falida, estava localizada em águas internacionais, eles não imaginavam que encontrariam tantos problemas.
Klaus logo voltou no seu pequeno barco a remo para as Ilhas Comores, onde quatro criados nativos o aguardavam na praia. Enquanto isso Diamante colocava ordem na casa, lavando a areando os quatro imensos pilares. Quatro noites depois Klaus estava de volta, na manhã seguinte um dos criados soprou uma corneta – era a fundação do novo país que acontecia.
Klaus era o supremo presidente e Diamante a primeira dama. Os quatro criados eram o povo e agora só precisavam de uma igreja.
Klaus remou novamente, dessa vez até uma praia qualquer da Indonésia e de lá telefonou para o Vaticano, duas semanas depois uma comitiva chegou à plataforma, mas não encontrando nada que fosse de seu interesse, partiram em menos de cinco minutos – Pro inferno esses filhos da puta – esbravejou o supremo presidente.
Mas as notícias ruins não paravam por ai, as estruturas da plataforma estavam completamente condenadas, de forma que balançavam de um lado para o outro quando o vento soprava – Precisamos dar um jeito nisso – Klaus estava descendo por uma escadinha enferrujada na lateral da plataforma com uma lata de cola na boca.
Na semana seguinte um dos criados fugiu no meio da madrugada levando o barco e deixando os cinco habitantes do país entregues à própria sorte – Ainda falta um nome – disse Diamante, referindo-se ao nome do novo país que ainda não havia sido escolhido – Vamos fazer uma votação – disse Klaus e todos escolheram seus nomes preferidos, como cada pessoa havia escolhido um nome diferente, houve um empate técnico acompanhado de certo silêncio – Nesse caso então eu escolho – a primeira dama falou, declarando em seguida que o nome seria Diamante – Isso irá atrair os saqueadores – Klaus tinha dado a sua opinião, enquanto os três criados timidamente acompanhavam de longe a discussão.
Uma rajada mais forte de vento fez a plataforma balançar tanto e o rangido foi tão alto que todos tiveram medo de que aquilo pudesse ceder – Nesse caso, precisamos de armas – Diamante parecia mais animada – Um exército, talvez – falou entre dentes um Klaus bastante pensativo – Mais empregados, mais gente do povo, funcionários para o governo – continuou – A morte do fugitivo – bradou Diamante – Investimentos – e quando disse isso Klaus olhou para a primeira dama que parecendo positivamente surpresa com a idéia perguntou – Investimentos? – Investimentos, fundos de algum banco norte-americano ou japonês.
Lady parecia bastante satisfeita com essas palavras finais do supremo presidente que agora, agachado, rabiscava no chão uma extensa lista com nomes de bancos, armas e jóias.
O vento soprou mais forte, a plataforma balançou e balançou – um rangido alto, acompanhado de gritos histéricos.
Até que tudo fosse deixado para trás.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A VELHICE E O MEDO - II

A velhice é uma solteirona que mora na rua de trás, envolta por suas plantas e gatos. É comedida e sincera. É limpa.
E talvez ignore as próprias rugas.
Tem histórias para contar, aos montes.
Sorrisos breve, nostálgico e enigmático – como peças de um quebra-cabeça para sempre incompleto.
Dedos de palavras cruzadas e o hábito de alimentar os pombos.
A velhice rejeita igualmente a pressa e o vício.
Admira os jovens e os livros de fotografia.
Toca a campainha: é o medo. O medo é um senhorzinho cabisbaixo e ranzinza que mora no andar de baixo, vive sozinho e só muito de vez em quando aparece.
Toma uma xícara de café, ouve umas estórias. Como uma fatia de bolo e desaparece tão rápido quanto chegou.
O medo se cobre com cores escuras, guarda distância do sol e das ruas demasiadamente íngremes, sua casa é visitada todos os dias por moleques que tocam a campainha e saem correndo.
Pobre medo – não tem tempo de chegar à porta – e quando chega: nem rastro de menino. Ao invés deles, um tanto surpreso encontra a sua frente, a Dona Velhice, sorridente, a estender-lhe um pedaço de torta.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

VIVER É MORRER AO CONTRÁRIO

Depois de tanto bater a cabeça nas paredes do colégio, um dia pude enfim compreender. Mas foi só quando a coisa começou a rolar que eu tive a noção exata do que era aquilo que tanto me falavam, como se fosse a promessa de algum tipo de felicidade etérea que até aquele momento jamais fora vivenciada por mim ou qualquer uma das pessoas que eu conhecia. Aconteceu numa sexta-feira, logo depois da primeira aula, uma sirene tinha tocado, mas não era o sinal da escola, era uma sirene dentro da minha cabeça e ao som dessa sirene fundia-se também o som de todas as vozes, de todas as pessoas dentro da escola, era possível escutar até mesmo as pessoas que estavam caladas, suas vozes sussurravam palavras desconexas que batiam dentro do meu estomago, minha barriga revirava ao girar dessas palavras lá dentro, me contorci um pouco, tentando disfarçar minha loucura, elas eram pesadas como pedregulhos, suava frio e tremia dos pés a cabeça, meus pensamentos falhavam, como se fosse um pisca-pisca, minha vista escurecia e clareava. Devo estar morrendo – pensei e foi então que vomitei no chão da sala antes que o professor da segunda aula chegasse. Os outros alunos pararam perplexos, me encarando por um minuto, mas logo depois voltaram para dentro de suas caixas de papelão, assistíamos às aulas de dentro dessas caixas muito grandes que o governo tinha fornecido logo depois que a última árvore tombou seca, uma primavera antes. Acontece que, logo depois, enquanto eu ainda me recuperava, um tanto aliviado por me sentir mais ou menos melhor, o segundo professor não entrou na sala de aula, ao invés dele o primeiro professor, o que tinha saído pouco antes, voltou para a sala, de costas, os alunos silenciaram e então o professor começou a falar, sua fala e seus gestos eram tão estranhos a primeira vista que por pouco não saltei pela janela, sorte a minha, pois estudávamos no trigésimo sétimo andar. Conforme eu prestava atenção nos professores e nos alunos, percebia que algo estranho acontecia, como se o tempo, de fato passasse ao contrário, como uma fita de videocassete rebobinada. Mas foi o relógio no alto da parede que denunciou, o tempo estava mesmo correndo ao contrário e o sol começou a descer novamente, mergulhando feito um peixe abatido lá pros lados do Japão. Eu tentava compreender como aquilo era possível, gesticulava e falava, tentando chamar a atenção dos outros alunos e do professor, mas fui solenemente ignorado. Estavam realmente todos rebobinados. Olhei pela janela, tinha uma cortina grande e branca antes dela, lá em cima, trilhos presos com parafusos fortes, puxei um pouco para testar, eram firmes feito aço, pendurei-me nelas e comecei a balançar, de um lado para o outro, no meio da sala, ouvindo todos aqueles sons malucos, o relógio ao contrário, o sol descendo, o dia novamente amanhecendo e então o professor foi embora, de costas, como se estivesse chegando, os alunos também foram saindo, um a um, todos de costas também, era muito estranho, muito bizarro, enquanto eu permanecia balançando nas cortinas. Subi mais um pouco, quase encostando a mão no teto – Cuidado – alguém disse, olhei para baixo, mas todos os alunos já tinham ido embora, as luzes se apagaram e a mesma noite de antes retornara – A matéria é líquida quando a vida corre ao contrário – uma voz vinda lá do corredor falou, evitei tocar o teto com medo de que ele escorresse em cima de mim. A noite trouxe um silêncio inexplicável, espectros apareceram para conversar comigo, tentavam me convencer a descer da cortina – Você entrou numa espiral sem volta – eles disseram, só havia uma maneira de parar com aquilo, era entrando num caixote de madeira com as cores da bandeira japonesa – É onde o sol nasce, portanto é onde ele morre também, nascer e morrer, qual a diferença? – uma voz conhecida falou, então deslizei feito alguma coisa meio líquida e deixei que me colocassem novamente, dentro daquele caixote de madeira, foi quando o tempo parou, nem pra frente, nem pra trás, só eu e a escuridão silenciosa, abraçados e encaixotados num orgasmo eterno - Se soubesse que era assim, teria vindo antes - eu disse.
- Psiu - alguém fez.
Só então silenciei.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

CANTORES DE CHUVEIRO

No meu tempo não havia essa liberdade toda. Hoje as coisas estão bem diferentes, ainda existe muito preconceito, mas ninguém vai te meter uma bala na cabeça só porque você canta enquanto toma banho. Pergunta para as suas tias, como era na nossa época, tínhamos que guardar segredo sobre nossas músicas, se íamos para o banho, logo papai e mamãe colavam seus ouvidos na porta, e se ouvissem algo, alguma coisa que ao menos vagamente parecesse com uma música, então na hora em que você saia do banheiro era surra na certa, depois os professores vinham conversar com você, te aconselhavam, chamavam psicólogos, os pais querendo botar os filhos para fora de casa, as mães chorando, perguntando a elas mesmas, onde foi que erraram. A Kátia teve muitos problemas com isso, porque ela batia o pé e não estava nem ai para o que os outros achavam, cantava suas músicas e pronto, além de tudo, cantava alto, tão alto que a vizinhança toda escutava. O Pedrinho também não era fácil, foi mandado para um internato depois que papai escutou ele cantarolar algum tipo de ópera embaixo do chuveiro. Para a família era uma vergonha tremenda e tentavam esconder o caso a todo custo. Nas rodas de amigos era raro encontrar alguém que admitisse ser um cantor de banheiro. Eu me lembro da Kátia, do Pedrinho e do Adamastor, além do pessoal da associação, mas isso foi um tempo depois, quando a repressão policial era tanta que tínhamos que permanecer escondidos durante semanas, se algum vizinho ou conhecido telefonava denunciando a cantoria, o suspeito era logo autuado e levado pra delegacia, muitas vezes nunca mais era visto, novamente para a família era um misto de tristeza e alivio. Ninguém queria saber da gente. Éramos excomungados e impedidos de freqüentar os mesmos lugares que as outras pessoas, a gente normal, como se dizia, era a forma como se referiam àqueles que permaneciam em silêncio durante seus banhos, esses recebiam o titulo de respeitáveis cidadãos exemplares e nós éramos as escórias. Teve a época das passeatas, e ai a coisa começou a melhorar um pouco, ficamos mais organizados, a associação ganhava novos adeptos a cada dia, fazíamos comícios e caminhadas pelo centro da cidade, usávamos alto-falantes e faixas, exigíamos nossos direitos, mas a única coisa que a gente queria mesmo, era o mínimo de respeito. Então aquele senador de nome engraçado, nunca lembro direito o seu nome, Asdrúbal L. G. ou algo assim, ele foi eleito pelo voto popular e tudo, um monte de votos, e quando fez seu primeiro pronunciamento, declarou abertamente ser um cantor de banheiro desde os dez anos de idade. Para repúdio dos seus colegas de trabalho. Asdrúbal foi expulso do cargo que ocupava e lá fora, as ruas pegavam fogo. Organizamos barricadas, pegamos o que a gente tinha a mão, pedras, pedaços de pau, garrafas, barras de ferro e fomos à luta, a polícia e grande parte dos ditos cidadãos exemplares, pessoas cujas vidas eram um exemplo a ser seguido estavam nos esperando, foi um doloroso e sangrento combate, lutávamos bravamente, muitos tombavam e jaziam ali mesmo, do nosso lado, bem no meio da rua. Mas nós não desistíamos, continuávamos atirando nossas pedras na direção do inimigo, muitos dos que estavam do outro lado, percebendo nossa determinação, talvez tivessem percebido também que nossa luta era uma luta verdadeira, não estávamos ali para brincadeira, daríamos nossas vidas pela causa, se fosse preciso, muitos já o tinham feito, então essas pessoas começaram a chegar, de todos os lugares, eram pessoas pacíficas e conseguiam enxergar além de todas aquelas coisas que a mídia mostrava. A mídia sempre deturpou nossa imagem, no início simplesmente nos ignorava, não existíamos para ela, depois, quando ficamos mais fortes e era praticamente impossível nos ignorar, fomos alvos de mentiras sujas tantas e tantas vezes que estávamos dispostos a botar fogo em cada redação de jornal que encontrássemos pela frente. A batalha nas ruas durou cerca de vinte dias, o governo, vendo que a situação ficava a cada dia mais fora do seu controle, baixou um decreto emergencial, devolvendo os nossos direitos, direitos que sempre tivéramos antes de termos nos declarado publicamente cantores de banheiro. O presidente veio pessoalmente de helicóptero conversar com a gente, os papéis assinados foram mostrados como garantia. A partir de então podíamos andar tranquilamente pelas ruas, pois já não era proibido cantar debaixo do chuveiro. A repressão policial e o preconceito nunca acabaram. Nos acusam de doentes, mas a doença é deles, e nunca admitiram isso. Agora temos nossos direitos e os tempos são favoráveis para que pessoas que cantam enquanto tomam banho possam conviver naturalmente com as pessoas que permanecem caladas, tem muita gente da associação que ceticamente pensa estar longe desse dia chegar, às vezes eu acredito nelas, mas sinceramente prefiro acreditar que estejamos evoluindo um pouco mais rápido do que esses passos de tartaruga que a custa de tanto suor e sangue demos de nós mesmos, todos os dias.

O CORRETOR CICLOPE

Outro dia, numa ensolarada manhã de domingo, eu e minha menininha passeávamos de carro por um bairro arborizado, desses cheios de conjuntos residenciais novinhos em folha com placas de vende-se a perder de vista. De fato era um dia muito bonito – Ei amorzinho, o que você acha de comprarmos um cantinho assim para a gente? – ela perguntou candidamente – Ok, minha florzinha, vamos nessa então – estacionei o carro em frente ao prédio, era um modelo simpático, de modo que ficamos meio apreensivos, encantados e tal – SAIAM JÁ DA MINHA PROPRIEDADE – disse uma voz muito grave. Ela vinha da direção da sala que servia de plantão de vendas. Nisso aparece o gigante ciclope furioso, bradando novamente – SAIAM, SEUS IMUNDOS – e nem tivemos tempo de correr até o nosso modesto carro. Ele nos apanhou e chutou nossos traseiros com tanta força que viemos parar do lado de cá do viaduto – Isso não vai ficar assim – eu disse para a minha lindinha e muito bem disposto, levantei e segui a pé o caminho que nos separava daquelas ruazinhas arborizadas, seguido pelo meu amor – Ei, seu gigante ciclope de merda, olha só o que eu tenho para você – e atirei um peixe morto na sua direção. Como diz a lenda, certos corretores são extremamente alérgicos a carne de peixe, principalmente se o peixe morreu em águas muito poluídas. Dito e feito, o tal corretor desintegrou-se no momento exato em que entravamos no carro, seguimos novamente pelas ruas arborizadas do bairro residencial, fugindo da imensa nuvem de pó em que se transformara aquela imensa massa ciclope, dobramos a direita e novamente as placas de vende-se a perder de vista – Ei, amorzinho, o que você acha de comprarmos um cantinho desses?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

CRIANÇAS COM OLHOS DE URSOS DE PELÚCIA

Foram muitas as estórias curiosas que aconteceram na época em que trabalhei num hospital de brinquedos e bonecas na zona oeste de São Paulo. Já faz bastante tempo, cerca de vinte anos, mas ainda guardo na memória cada uma delas, tão vivas quanto um anteontem, as falas e os gestos, os rostos de todas aquelas pessoas, permanecem no sussurro de um retrato mais ou menos apagado, pendurado na parede da minha mente. Foi a época em que pais e mães chegavam com seus filhos, segurava-os nos seus colos com um cuidado inexplicavelmente exagerado, as crianças quase sempre tinham alguma febre ou resfriado – Conserta minha bonequinha!? – Dá um jeito no meu pobre brinquedinho!? – eles falavam me estendendo as mãos com aqueles pedacinhos de gente. E eu tinha que explicar-lhes que o hospital ficava a duas quadras dali. Alguns ficavam surpresos, outros ficavam perplexos, arregalavam os olhos e saiam de fininho. Outros simplesmente se recusavam a levarem seus filhos naquele lugar “repleto de doenças infecto-contagiosas”, então eu fingia consertar seus filhos, seus brinquedinhos, para que ficassem mais calmos, para que se sentissem melhor. Eu sempre tive uma pena enorme da miséria humana e aquelas pessoas todas pareciam no limite do esgotamento físico e mental. Depois de cinco ou seis minutos, entregava-os de volta para seus pais e mães radiantes, segurando crianças explodindo de febre. Eles perguntavam quanto tinha sido a consulta, me ofereciam dinheiro e doces. É claro que eu recusava, afinal de contas não tinha feito nada demais além de implantar umas buzininhas com sons engraçados dentro da barriga de cada uma daquelas crianças, de modo que, toda vez que eram abraçados ou apertados, emitiam sons de brinquedos para recém nascidos. Passava um tempo e os pais retornavam transbordantes de agradecimento pelas buzinas implantadas na barriga dos seus filhos – É sinal de amor – eu dizia, e alguns pediam para que eu implantasse olhos de ursinho de pelúcia no lugar dos olhos naturais, mas tamanha ignorância, juro que nunca fiz, apesar de toda a insistência e do dinheiro que me fora oferecido. Portanto nada tenho a ver com essas crianças com olhos de plástico que desfilam as cegas pelos corredores da cidade, e se você reparar bem, se tiver a oportunidade de abraçar uma delas, verá que não possuem as buzinas que instalei anos atrás, talvez tenham entrada para carregadores de bateria, talvez tenham botão de liga e desliga, mas certamente não encontrará as buzinas, isso foi idéia minha e todos os méritos e prestigio devem ser endereçados a mim. E além do mais, já faz vinte anos, vinte longos anos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

SE REGININHA AO MENOS SUSPEITASSE

- Bom dia. Gostaria de falar com a secretária do presidente!
- Qual o seu nome?
- Diga a ela que é o Senhor Presidente quem fala!
- Senhor Presidente?
- Exato!
- Um momento!
...
...
- Alô, Gláucia? O Senhor Presidente está aqui na recepção, pode atendê-lo agora?
...
...
- Ela disse que está muito ocupada e perguntou se pode ser por telefone mesmo?
- Passa esse telefone pra cá!
- Alô, Gláucia? Gláucia, meu amor. Eu te amo!
( - Mas, Senhor Presidente, o Senhor é apenas um fantoche!)
- Ao menos o amor é verdadeiro!
( - Podemos falar mais tarde? Estou no meio de uma reunião importantíssima!)
- De que tratam?
( - De tratados!)
- Tratados de paz?
( - Não, de Tordesilhas!)
- Diz que me ama!
( - Vou desligar!)
- Anda, diz que me ama!
( - Já avisei que vou desligar!)
- Diz que...que...
...
...
- Secretarinha duma figa, desligou na minha cara!
- Ihihihihihi, aceita um café, Senhor Presidente?
ele responde afirmativamente com a cabeça
- Açúcar ou adoçante?
- Duas pedras de gelo, por favor!
- Aqui está, Senhor Presidente, com as pedras de gelo e tudo!
- Qual o seu nome, menina?
- Marcinha e o seu?
- Lindo nome, eu me chamo Senhor Presidente!
- Fico lisonjeada pelas palavras. O senhor é muito gentil, Senhor Presidente!
- Que tal subirmos a rampa?
- A ra-rampa d-do planalto?
- Onde mais?

de mãos dadas os dois pombinhos cruzam o gramado em direção à rampa

- Ehehehehehehééé, Senhor Presidente?
- O quê é agora?
- Sabe, Senhor Presidente, o senhor é tão, assim, como eu posso dizer, ai, peraí, o senhor é tão, tão...
- Tão?
- Tão generoso, Senhor Presidente!
- Ah, minha cara Regininha, se você ao menos suspeitasse!
- Marcinha, presidente, Marcinha!

Ignorados pelos soldados que permanecem estáticos na entrada do Planalto, eles desaparecem em duas silhuetas apagadas misturadas à imensidão crepuscular que paira a incontáveis anos, naquele mesmo lugar.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A MENINA QUE QUERIA VOAR

Era uma vez uma menina que queria aprender a voar. Ela passava horas e horas admirando os pássaros e as borboletas, suspirando e sonhando para que chegasse logo o dia em que aprenderia a voar. Ela tentou inúmeras vezes saltar do alto de penhascos, prédios e escadas e sair voando, mas o máximo que conseguiu foi uma coleção de pinos espalhados pelo seu pequeno e frágil corpo. Ela visitou bruxas e médicos especializados, padres, pastores e donos de bar, até o Papa e o presidente dos EUA, receberam a menina que queria aprender a voar, mas nenhum deles tinha a resposta. Ela está soprando no vento – Bob Dylan falou. A pobre menina comprou tudo quanto era remédio que anunciavam na t.v, todos tinham a fórmula secreta que lhe daria poderes para voar, infelizmente nenhum deles funcionou.
Um dia, quando já tinha perdido as esperanças de um dia alçar vôo, a menina que cabisbaixa caminhava por uma rua do centro da cidade começou a voar, ela pensou que estivesse sonhando e beliscou o próprio braço, não era sonho, pensou que talvez fosse o seu chiclete, um chiclete mágico e atirou ele longe como se fosse uma pedra, o chiclete caiu lá embaixo e ela continuou subindo, batendo os braços como se fossem asas, alguns homens ficaram olhando enquanto ela subia – Maldito dia para usar saia – ela disse mandando uma banana para os curiosos lá embaixo. Então ela voou para outros lugares, conheceu outras cidades, visitou seus parentes e voando outra vez, de volta para casa, pousou no alto de uma banca de jornal, um policial atento viu a menina lá em cima e ordenou – Desce já daí – Não desço – ela respondeu – então ele atirou nela com sua automática preta e a menina caiu morta feito um pombo eletrocutado no meio fio e foi assim que terminou a estória da menina que queria aprender a voar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A DESCRIÇÃO DE UM SONHO

No sonho eu estava aparentemente perdido dentro de um supermercado enorme, digo aparentemente porque embora eu não soubesse para qual direção seguir, meus passos e minha fala continham uma tranqüilidade espantosa e além do mais várias pessoas conhecidas cruzavam o meu caminho, devo dizer que na vida real desconheço qualquer uma dessas pessoas que encontrei naquele supermercado. Eu empurrava um carrinho e as prateleiras estavam todas cheias de remédios, na verdade cada fileira continha remédios para um tipo especifico de doença. Lembro de ter parado muito tempo na parte dos analgésicos e minha perna direito doía sobremaneira. As outras pessoas passavam com seus carrinhos e seus filhos sentados naqueles banquinhos dentro dos carrinhos, às vezes paravam, apanhavam um remédio qualquer e seguiam. Depois dos analgésicos fui parar no corredor dos tranqüilizantes, os naturais do lado direito e todos aqueles que eu já conhecia do lado esquerdo, apanhei duas caixas de Valium e joguei dentro do carrinho, elas quicaram em outras caixas de remédio que eu apanhara antes, meu carrinho estava até a boca de tudo quanto é tipo de remédio e de alguma forma, dentro desse sonho eu sentia que precisava mortalmente de cada um deles, então as duas caixinhas de Valium caíram no chão, penosamente abaixei e apanhei uma de cada vez, minhas mãos tremiam e as mãos de outras pessoas também, algumas simplesmente ficavam circulando para lá e para cá com suas cadeiras de rodas cintilantes entre as incontáveis fileiras de remédios. Encontrei um espaço no carrinho e empurrei as duas caixas naquela espécie de fresta, elas deslizaram e novamente ficaram caídas no chão, foi um sacrifício enorme, mas consegui me abaixar novamente e averiguar o que ocorrera dessa vez, na parte de baixo do carrinho havia pequenas frestas que eu não conseguia entender para o quê serviam e essas frestas eram maiores que as minúsculas caixinhas do tranqüilizante. Pensei em apanhar uma fita adesiva com algum funcionário do supermercado e tapar aquelas frestas todas de modo que os remédios não caíssem mais no chão, havia uma luz num canto que eu não sabia identificar se era na parte da frente ou nos fundos do estabelecimento, de qualquer forma, parecia distante demais, intuía que aquela luz continha alguma coisa divina, talvez um fabricante ou o químico responsável por alguma daquelas criações. Lembrei então que provavelmente era por isso que eu andava perdido entre aqueles corredores de remédios, eu já andara procurando por um funcionário antes, mas minha memória e meus reflexos andavam péssimos. Um fila de gente trôpega aguardava com suas caixas de tarjas pretas para o autografo de um renomado cientista europeu – foi o que eu encontrei. Nada da fita. Passei por um sujeito estranho que me encarou um pouco e então perguntou se eu não queria um pouco de massa autocolante, respondi que sim e ele pediu para que eu pagasse três caixas de antidepressivos para ele, entreguei as moedas e apanhei um pouco daquela massa cinzenta que ele dizia ser autocolante. Tentei de todas as formas, juro que tentei. Uma convulsão me apanhou antes que eu pudesse terminar, quando acordei estava numa cama branca com agulhas espetadas no braço, uma enfermeira com rosto de plástico veio tirar minha pressão – Bom dia – eu disse – Hay – ela respondeu e notei que de seus braços horríveis veias verdes e pretas saltavam como uma tatuagem grotesca. Adormeci.